Críticas e Comentários

PRC, cuja palavra grave foi assemelhada a “uma raiz que fecundasse a terra de auroras e ressurgimentos” (...) Testemunham-no os versos de abertura dum trabalho que bem poderia caber na modalidade épica, portanto impessoal,- porque traça um destino heróico, não as vicissitudes de um poeta sonhador. Antecipo a objeção: tudo isso deve ser aplicado, não ao criador da gesta, mas ao seu herói. Tanto melhor, embora eu pressinta uma identificação do criador com a criatura. Há luta em todos os recantos do poema. Da sua posição de fogo, o lidador adverte: “Olha que nasce a guerra...” Ele se acha entrincheirado num sonho de grandeza e de conquista, o que lhe propicia um terreno ideal, embora ígneo, para um amor que raia com a loucura: “Aqui, ele ama como um homem ama: /A própria loucura”. Por este lado constituindo a luta com um dos maiores antídotos contra a ansiedade, o poema é alvissareiro. (...) A inquietação denuncia-se no entre-choque de situações afetivas pragmaticamente opostas, como “fúria e gozo”. A própria obra que o guerreiro-demiurgo empreende tem um tal ou qual caráter teratológico, como reflexo de estado tumultuário do seu espírito (...) Sente-se que na construção mesma há demolição. (...) Poeta do mérito desse estreante, cuja sensibilidade – e encantamento até! – nos dão versos como estes: “De muito retalhar/ o silencio da terra,/ Tanto,/ tanto penhasco removi em pós o enigma da posse,/que aprendi a ouvir o inexprimível: /Como a semente baixo ressoa, /logo cresce, /Se agiganta”. (...) Há pois fundadas razões para se acreditar nos poemas e prosadores do momento, negando o panorama sombrio que eu vi há uns doze anos atrás e que nada mais era do que, simplesmente isto: a literatura estava morta em nossa terra. E o grande sinal da terrível verdade era que a mocidade se mantinha calada.

Dionélio Machado
Variações sobre a Poesia
Correio do Povo, Porto Alegre, 6/11/66

Andei lendo e relendo – em sessões descontínuas, depois de uma contínua – seu Breviário da Insolência. A força de Crisbal perdura, mas você cresceu, na construção, na capsularidade, no epigramático. está algo dizendo-me que sua economia verbal é usina da qualidade – associada a algo que não é freqüente, a luminosidade. A coragem de não abdicar de uma convicção – a de que, como homens, sejamos deuses ou sejamos nada, nada somos se não reivindicamos para todos o que queremos para um só que seja de nós – faz de sua poesia algo eterno, indo às fontes, pois nas fontes até o lírico é social. Nisto que me resta de vida, é uma alegria – grave, mas alegre – ler o que sai da alma de homens como você. Se o quadro humano é torpe, não o é por causa de homens como você. Poeta, prossiga – rogo-lhe!

Antonio Houaiss
23/02/91

(...) Os núcleos com que se mune, na Estação de Força (1987), se constelam em rebeldia, motim, cavilação, conjuras, privação, forjadura, viseira, sublevação, batalha. Seus vocábulos são ferrenhos, como o fio da espada desembainhada. Livro de verbos em rotação, todo o texto ruma para a luta sem quartel em lugar nenhum. Ou em todos. (...) A poesia de PRC, em Breviário da Insolência, perdeu os adornos, para se tornar mais intensa; despojou-se para achar a medida de exatidão e deserto. Adentrou-se para adensar-se. Ficou substantiva para endurecer o pensamento na luz. e a luz na palavra sonhando. As coisas só podem ser ditas, como o foram pelo poeta, até o cerne. De Crisbal, o Guerreiro (1966) para Estação de Força (1987), foi um processo de maturação e quietude. Vinte anos de silencio os intermeiam. E, agora, esse volume editado pela Massao Ohno é a simplicidade da pedra polida na funda de Davi, até o alvo. Como Davi, o poeta não mais se ajusta à armadura e ao escudo. Joga-os fora. São demasiadamente pesados. Não se acoplam mais. Basta-lhe o cajado de peregrino e a funda esticada. Na perícia. O que mais é necessário para a alteza da poesia, senão o lance no espaço? Tudo se engatilha, até a dor. Tudo se armazena, até o sonho. O raio atravessa a palavra e esta, a inteligência das coisas. Qual a técnica do vôo? É o vôo. A agudeza do arremesso. E a concretude é tanta, que explode o verso com as imagens. (...) PRC suscita, dialogicamente, como pretendia Bakhtin, a imaginação do leitor. Bate, desperta. E tem a capacidade verbal de “isolar e chamar a atenção para o que já temos em nosso poder” (R.P. Blacman). O que vislumbramos, antes. Na memória. (...) Eis a força, a fúria do que resiste. Pois não há separação diante da poesia. É sobretudo esta – obstinada, crítica, consignadora, vergada de trabalhos, esperançosa, livre. E que nos reconcilia com o tempo.

Carlos Nejar
Breviário da Insolência
Massao ohno, 1990

(...) Os poderosos deste mundo lançam mão dos mais diversos pretextos para manter o Homem sob o jugo da servidão, da miséria, da doença, do sofrimento, da ignorância. Cabe ao poeta manter desperta a consciência e compartilhá-la com seus irmãos. Cabe-lhe, com sua intuição visionária lançar pontes sobre a banalidade cotidiana e arrebatar ao futuro as utopias mais inacreditáveis; e colocá-las diante de olhos cansados, incrédulos, míopes e até mesmo cegos, a fim de que o Homem se sinta motivado a reunir o que lhe resta de força, para tentar mais uma vez o salto, o transcender.

Eduardo Alves da Costa
Breviário da Insolência
Massao Ohno, 1990

Quando PRC publicou, em 1966, Crisbal o Guerreiro, pelo Instituto Estadual do Livro, público e crítica receberam a obra com entusiasmo. Fugindo aos esquemas tradicionais, o texto revela com força épica raramente encontrada na poesia brasileira, constituindo-se o livro de estréia em obra acabada. (...) Retomando temas da obra anterior, (Estação de Força) impregna os versos uma força épica que funde, nas metáforas, erotismo e violência. Negando-se a contemplar o mundo, seu canto é coletivo, voz do homem que resiste ao próprio desamparo. Poesia social, é um grito de guerra que se nutre e ampara na esperança.

Léa Masina
Estação de Força
Movimentos/IEL, 1987

(...) Crisbal, o guerreiro, de PRC. Uma formidável construção poética, cuja linguagem se impõe, um tanto medieval, um tanto minério, um tanto arco-íris, em conjunto com as ilustrações de Stockinger, de uma força terrível. “Crisbal cavava um templo no foturo” – diz um verso de PRC – e outro: “Obra bastarda, suas mãos moldavam orlas/ na brasa quente, e ela refulgia viva e reta”. (...)

J.A. Pio de Almeida
Correio do Povo, 28/5/78

(...) PRC é um impressionista farncês mesclado a um trovador medieval. Parece que ele está cavalgando com uma bandeira de vitória na mão. (...) Gosto da vitalidade da sua poesia, do denodo (...).

Walmir Ayala
02/09/66

(...) Insolência de quem contra quem? A insolência para acontecer, requer sujeito e objeto. O objeto comparece meridianamente definitivo já nas primeiras páginas. O agredido é o homem: o seu brio, o seu desejo de lucro, a sua vontade de oprimir. Breviário da Insolência é um livro contra o culto do homem ao homem. Contra um certo humanismo, que na inoportuna exaltação do homem, aplaude as excrescências, os adereços, do ídolo cultuado. (...) A poesia lucidamente preocupada em depurar a palavra, em reconduzi-la à origem, em surpreender o novo, leva o poeta a refletir sobre os seus instrumentos verbais. Nas veredas da poesia, PRC descobre o meio de o homem conquistar e reconquistar a dignidade, sem negar o corte da humanação. A palavra livre, insubmissa, inventiva, depurada. Obediente à epígrafe: “tornar-se humano é uma arte”, o poeta faz da arte um instrumento de humanação. (...) PRC compreende a vida como um processo em que aquilo que é, nasce do seu contrário, dialética em que a poesia realiza a sua tarefa de renovação. Breviário é uma palavra que lembra prática religiosa, embora na poesia de PRC o breviário é sem transcendência, compromisso firmado com o aqui e agora, na sua emergência, na sua riqueza e pobreza. A lucidez do sujeito brota de dentro do que acontece. A espada se afia, na refrega. A vida renasce na escória em que se desgasta.

Donaldo Schüler
Rádio da Universidade, 20/03/91

(...) O poeta dá toda a ênfase ao canto, para transmitir na íntegra as suas emoções mais fundas de jovem diante da vida – a sua angústia, as suas esperanças, a sua estupefação às vezes.

Waldemar Cavalcanti
O Jornal, 23/10/66, Rio

“Crisbal, o Guerreiro” é um momento de consciência na poesia brasileira. É o grito agudo de um tempo feito loucura. É a ânsia realizada do poeta que habita o espaço do mundo moderno, que escuta a ameaça do seu tempo e busca nas cinzas do desvalor o barro inventivo do herói. Em Crisbal, o homem renasce, respira e supera. E a possibilidade de vitória surge como necessidade imperiosa. Porque ele é despojado e fantasmal, mas é real e olímpico, pois escuta as pulsações do mundo. Porque constrói o mundo, reinaugura o sentido e reinventa a razão. Crisbal é o renascimento do homem vertical e a sua reabilitação: busca na luta, não a idéia, mas o ato da dimensão do homem. Ele aproxima o homem do homem, desperta a sua consciência e faz brotar uma postura épica da própria condição da sua tragédia. Isso porque propõe a luta como medida do homem moderno. (...) Crisbal é a certeza e a confiança na vitória do homem, longe das nuvens do misticismo, pois é pregado na Terra que ele construirá as bases de sua humanização. Crisbal é um momento de dor para os niilistas modernos. (...) E se as linhas de sua poesia vibram de energia, e se o verso é deslumbrante e despojado é porque PRC não tremeu ainda diante das brumas do tempo que matam a juventude do homem. E se Crisbal continuar no gesto enérgico, não tremerá nunca.

M. Aurélio Barcellos
Correio do Povo, 5/6/66

(...) O que fascina em teu livro é, justamente, esta necessidade misteriosa das palavras; e elas adquirem a dimensão dos mistérios revelados quando sentimos sua carnalidade viril. “Crisbal, o Guerreiro” foi antes esculpido do que escrito. Sentimos em cada página o trabalho sobre o material que opõe resistência na plasmagem de um mundo das coisas, e jamais a plasmagem fácil e dúctil do mundo das idéias e das palavras vazias. E a grandeza do teu guerreiro está nesta existência carnal, quase férrea, que lhe dá materialidade. Encontramo-nos diante de um verdadeiro poeta, que negando a facilidade da palavra, procura em sua aspereza a criação de um mundo. (...) Pois é bom ter sempre consciente que não existe senão a justiça, a injustiça foi inventada pelo homem. E aos que falarem em apaziguamento, responde como Cristo no maravilhoso evangelho de São João: “Não vim trazer a paz, mas atear o fogo da luta”.

Jefferson Barros
Correio do Povo, 31/5/66

(...) A primeira observação que se faz é que o verso diminuiu se tamanho. Está mais denso, menos espraiado. A dicção, contudo, continua a mesma, o que é excelente. as preocupações e os temas que chamaram a atenção de todos para a literatura de PRC, vinte anos depois, embora parcialmente datados, na medida em que a história brasileira persiste enquanto um doloroso e irremediável impasse, não perderam a atualidade. Se em “Crisbal, o Guerreiro”, o tom era de indagação e rebeldia, com um pouco de denúncia quase panfletária, agora encontramos o mesmo rebelde, mas mais aprofundado e abrangente em suas perquirições. A denúncia contínua, menos panfletária mas muito mais irônica, o que demonstra menor envolvimento emocional e maior distanciamento dos fatos. A revolta persiste, mas ampliou-se a perspectiva que valoriza o humano, que descobre a proximidade e a identidade entre os seres e que, sobretudo, reconhece, na poesia e no fazer do poema, uma espécie de redenção-função do poeta em frente a este mundo menor fluído, mais fragmentado como denota o próprio verso, amplamente marcado pela violência, mas nem por isso, absolutamente, desesperançado. O retorno de PRC ao livro é extremamente importante porque amplia, não só em quantidade quanto em qualidade, o número dos artistas do verso que acreditam na arte enquanto identificada com a dor humana. (...)

Antonio Hohlfeldt
Diário do Sul, 2/7/87

(...) Carmo é um criador de palavras duras, ásperas, preocupado com o social, convicto de que o verbo é um ato de guerrilha. “O mal se legitima quando os que padecem não se revoltam”, assegura. A desobediência é fundamental: “Quando tudo se torna insuportável só a desobediência liberta”. Na arte rebela-se: “Pois se o poema / com uma palavra beija / com outra esbofeteia / com uma estocada fere / com outra amanhece, / às vezes mata /às vezes salva / com a direita esfola / com a esquerda consola / por que não há de ser o poema capa-e-espada?”. Herético, PRC acredita que os deuses amam a irreverência, pois “os homens desobedientes são feitos do barro que não se deixa amassar”. Pressiona: “O tempo conspira contra os que testemunham calados e não revidam”. Fala, então, poeticamente: “Da disciplina do sanegue / herdei a palavra / as desavenças / da disciplina da alma / habitei o deserto / as ventanias / da disciplina da insolência / sobressaltei os outros / o desprezo / da disciplina da humilhação / aprendi a desconformidade / as estranhezas / da disciplina dos loucos / contive o urro / os desejos / da disciplina dos touros / escarvei o chão / a desmedida”. Fazem-se, pois, poetas éticos, implacáveis, severos com a desigualdade, sem desmerecer a forma. “É na resistência que se ama mais intensamente a vida”, ensina.

Juremir Machado da Silva
Zero Hora, 5/11/1990

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